Departamento de Antropología

S22. Diásporas médio-orientais na América Latina: relações locais e transacionais

Día Horario Sala Sede Dirección
Martes 6 09:00-13:00 UH 4 Universidad Alberto Hurtado Almirante Barroso 10 (ver mapa)
Miércoles 7 09:00-18:40 UH 5 Universidad Alberto Hurtado Almirante Barroso 10 (ver mapa)

 

  Martes 6
09.00 a 13.00 Mesa I – Imigração e diásporas
  Larissa Maria de Almeida Guimarães. Ano que vem no Brasil: Narrativas da imigração judaica para o Rio Grande do Sul - os casos Egito e Turquia
Rodrigo Ayupe Bueno Da Cruz. Processos de construção identitária na comunidade diaspórica árabe de juiz de fora
Rodrigo Prates. A vila palestina que fala português: identidade e pertencimento em Kharbatha al-Misbah
  Miércoles 7
09.00 a 13.00 Mesa II - Comunidades muçulmanas na América Latina
  Jorge Eduardo Araneda Tapia. De las ilusiones del emigrado a los padecimientos del inmigrado caso de los inmigrantes árabes musulmanes a Chile 1930-1950
Lucía Amparo Emilia Salinas.El rol del maestro en una orden sufí argentina
Gisele Fonseca Chagas. Islã no feminino: o cotidiano religioso de mulheres muçulmanas no Brasil
Liza Dumovich. O afeto como mediação religiosa: Relações locais e transnacionais na construção de identidades muçulmanas entre mulheres convertidas da Mesquita da Luz
Silvia Montenegro. El Islam en el noroeste argentino: fronteras y tránsitos  entre alauitas y shiitas de la ciudad de Tucumán
15.00 a 18.40 Mesa III - Palestinos no Brasil
  Sônia Cristina Hamid. Árabes estabelecidos e refugiados palestinos recém-chegados ao Brasil: embates referentes ao "direito de retorno" e a uma "pedagogia de ascensão social"
Leonardo Schiocchet. Palestinos refugiados no Brasil, entre nacionalismos e o humanitarismo
Daniele Abilas Prates. Nem aqui nem lá: redes locais e transnacionais entre refugiados palestinos no Brasil

 

Coordinación: 

Gisele Fonseca Chagasgiselerpe@gmail.com

Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003), mestrado (2006) e doutorado (2011) em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense

Daniele Abilas Prates

Mestranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio - NEOM / UFF. 

Objetivo geral
Seguindo a idéia-chave proposta pelo congresso, este simpósio pretende reunir pesquisadores que discutam, através de diferentes perspectivas teóricas e metodológicas,os diferentes processos de construção de identidades (religiosas, étnicas,nacionais, gênero etc.) em comunidades diaspóricas médio-orientais na América Latina. O intuito é refletir sobre as dinâmicas locais e os fluxos transnacionais que envolvem tais configurações identitárias através do movimento e circulação de pessoas, instituições, idéias, textos etc.; assim como debater o papel dessas comunidades em diferentes contextos latino-americanos.

Palavras-chave: identidade, diáspora médio-oriental, fluxos transnacionais, religião, etnicidade   

Resumo

Estudos sobre movimentos migratórios e diásporas têm-se consolidado nas últimas décadas como uma área profícua de pesquisa e discussão no campo das Ciências Sociais. Em uma realidade cultural tão diversificada como a América Latina, análises sobre essa temática contribuem para um avanço significativo na compreensão dos diversos mecanismos de movimentação, acolhimento, integração e ressignificação identitária elaborados localmente pelos agentes sociais nesse processo; e fazem parte de uma proposta que visa perceber o processo migratório inerente à formação social dos países que compõem a região.
Considerando que pesquisas acerca dos processos pelos quais identidades diaspóricas são localmente construídas devem ser feitas levando-se em conta não apenas as dinâmicas interações com os elementos culturais locais, mas, sobretudo, a dimensão transnacional que envolve esta forma de configuração identitária, este simpósio visa discutir as diversas inserções de imigrantes médio-orientais (sírios, libaneses, palestinos, iraquianos etc.) nas sociedades latino-americanas, e suas relações com os fluxos transnacionais que os conectam a um lugar de “origem”. Tendo como eixo elementos como etnicidade, nacionalismos e os diferentes pertencimentos religiosos (muçulmanos sunitas/xiitas e cristãos de diversas igrejas orientais) que envolvem tais comunidades médio-orientais, reuniremos, neste simpósio, trabalhos que discutam a complexa circulação e comunicação transnacional de pessoas, idéias, textos, objetos e instituiçõesque dão contornos a tais redes diaspóricas, colocando-as em contínua movimentação.

1. Nem aqui nem lá: redes locais e transnacionais entre refugiados palestinos no Brasil

Mg. Daniele Abilas Pratesdaniabilas@gmail.com, Universidade Federal Fluminense 

Este artigo tem como objetivo analisar como o deslocamento e a desterritorialização de refugiados palestinos reassentados no Brasil podem dar forma à construção social de novos espaços, redes de solidariedade, identidade e pertencimento. A análise será realizada nos processos, relacionamentos e interconexões desenvolvidos pelos refugiados e as estratégias para a construção de um novo espaço social, investigando o processo do refúgio como um espaço liminar, o impacto que a classificação como refugiado – ou a não-classificação como cidadão – exerce sobre a ideia de pertencimento, as redes locais e transnacionais como estratégias de assimilação ou de separação, e a criação de novos espaços sociais como alternativa para o reordenamento da vida social. A questão geral gira em torno de como a experiência liminar desafia e cria espaços para uma nova forma de se perceber no mundo, bem como dos novos espaços sociais criados pelos refugiados, desafiando assim questões clássicas das ciências sociais como nacionalidade, ausência de nação e de estado, assimilação e construção de identidades. Resultado de trabalho etnográfico junto aos refugiados palestinos, este artigo pretende refletir sobre os processos e interconecções, os relacionamentos com redes de solidariedade local e transnacional e a criação de novos campos sociais.

2. Reassentamento de refugiados palestinos no brasil e identidade nacional

Dr. Leonardo Schiocchet, schiocchet@gmail.com, Boston University 

O recente cenário de guerra no Iraque formou uma grande população de refugiados. Parte dessa população passou a habitar campos de refugiados localizados sobretudo em no man’s land entre as fronteiras do Iraque com a Síria, e do Iraque com a Jordânia. Em 2007 a ONU deciciu procurar uma solução “definitiva” para tais refugiados, o que culminaria com o fechamento definitivo dos campos. A iniciativa contava com o envio dos refugiados à vários países do mundo, onde, com o tempo, adquiririam cidadania. Assim, a ONU teria pedido ao governo brasileiro que trouxesse parte do contingente de refugiados palestinos do campo Rawaished ao Brasil, tal como outros países o fizeram. De fato, em 2007, o governo brasileiro trouxe de lá um grupo de palestinos, veiculando essa vinda na mídia internacional desde a fase de implantação desse projeto, e articulando a ela uma narrativa sobre o caráter pluriétnico, muticultural, laico e religiosamente tolerante do Brasil. Articulou a isso também uma narrativa de que o Brasil é um país de imigrantes, onde estes sempre teriam feito parte do projeto nacional e onde estariam excepcionalmente bem integrados, gaças às favoráveis condições historicamente e presentemente oferecidas pelo estado e pela nação locais. Nesta comunicação viso colocar em perspectiva mitos sobre a construção nacional brasileira. Buscarei mostrar sobretudo que tanto a narrativa do governo brasileiro sobre os refugiados quanto a prática instucional sobre estes têm dependido de mitos sobre o lugar do imigrante no país que, por sua vez, constituem o “caráter nacional brasileiro”. Neste congresso, busco também discutir a hipótese de que este tipo de narrativa sobre o refugiado é um elemento dominante, de forma mais geral, também em outras narrativas nacionais latino-americanas.

3. El rol del maestro en una orden sufí argentina

Mg. Lucía Amparo Emilia Salinas,  lu.salinas@gmail.com, Universidad Nacional de Rosario 

En esta presentación nos interesa referirnos a las comunidades sufíes de la República Argentina, trabajando especialmente a partir de la tariqa Naqshbandi Haqqani de la ciudad de Rosario, provincia de Santa Fe. La dergah de esta ciudad se inicia como agrupación independiente el año 1997, derivada de otra de una localidad cercana. La misma forma parte de una cadena de tariqas translocalizadas, que conforman una comunidad cuyo eje es el maestro vivo de la orden: Mawlana Shaykh Nazim al Haqqani. El mismo nació en Lárnaca, Chipre, en el año 1922. Su linaje por parte de padre tiene raíces que van hasta Abdul Qadir Gilani, fundador de la Orden Qadiri y su linaje por parte de madre asciende hasta Jalaluddin Rumi, fundador de la Orden Mevleve. Mawlana reside actualmente en Lefke, en la República Turca del Norte de Chipre, donde se encuentra la dergah madre de la tariqa y hasta donde asisten de manera permanente discípulos (murids) de todo  el mundo. Sus sohbets son grabados y difundidos regular y frecuentemente en la  web, colaborando en la conformación de la comunidad transnacional y la proximidad del maestro a sus discípulos. Nos interesa en este sentido, trabajar las diversas significaciones en torno al Maestro vivo que circulan en el grupo local, analizando la caracterología del líder que realizan los murids, así como la forma en que es representada la conexión con el mismo y con el resto de los hermanos en tanto comunidad ligada por Mawlana. Abordamos la agrupación local desde una perspectiva etnográfica, valiéndonos para el análisis de  entrevistas a los miembros y líderes, la participación en las reuniones semanales de la misma (dker) y el análisis de fuentes de la tariqa. Trabajaremos reviendo parte de la abundante literatura socio-antropológica clásica en la temática del liderazgo carismático, eficacia simbólica y la denominada baraka.

4. Islã no feminino: o cotidiano religioso de mulheres muçulmanas no Brasil

Dra. Gisele Fonseca Chagas, giselerpe@gmail.com, Universidade Federal Fluminense

Nas últimas décadas, uma renovada atenção acadêmica tem sido dada a pluralidade de formas nas quais identidades e experiências religiosas de “mulheres muçulmanas” são construídas em diferentes universos geográficos e culturais, para além da dicotomia “opressão”/ “resistência”. Tais estudos têm nos fornecido análises mais nuançadas a respeito da complexidade de elementos históricos, políticos e sociológicos envolvidos neste processo, indicando a necessidade de pensarmos as diferentes arenas sociais criadas pela combinação e confrontação entre as identidades religiosas de muçulmanas e outros fatores como gênero, etnicidade, nacionalismo, migrações, acesso à educação e ao mercado de trabalho, por exemplo. (KEDDIE & BARON, 1991; AHMED, 1992; ABU-LUGHOD, 1996; MOGHADDAM, 2003). No entanto, pouca atenção acadêmica tem sido dada às questões que envolvem as vidas religiosas de mulheres muçulmanas no cotidiano, a partir de suas próprias perspectivas (BOTTCHER, 1998; RAUDVERE, 2002; MAHMOOD, 2005; CHAGAS, 2011). Quais rituais e espaços sagrados (mesquitas e santuários) muçulmanas participam? Como elas contribuem para produção de entendimentos sobre sua religião? Que posições de autoridade religiosa são abertas à participação de mulheres no islã? Em quais redes locais e transnacionais mulheres muçulmanas estão inseridas? Quais imaginários religiosos são produzidos? Neste sentido, esta comunicação pretende abordar as questões acima analisando: (1) as várias nuances que envolvem os mecanismos locais e globais na produção e transmissão de conhecimento religioso islâmico entre mulheres muçulmanas no Brasil, (2) os espaços que são abertos para sua atuação religiosa e (3) os fluxos transnacionais que envolvem este processo (casamentos, consumo “islâmico”, trabalhos missionários etc.), conectando, de forma geral, as comunidades muçulmanas diaspóricas no Brasil às sociedades majoritariamente muçulmanas do Oriente Médio. A idéia central é perceber as dinâmicas que envolvem os processos de produção e articulação local de conhecimento religioso a partir das idéias de um islã “universal” que circula globalmente.

5. Entre o local e o global: as identidades muçulmanas no Brasil

Dr. Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto,  philu99@hotmail.com, Boston University 

Esta comunicação é resultado de pesquisa etnográfica que realizo desde 1997 sobre o Islã contemporâneo e os universos étnico-religiosos das diásporas provenientes do Oriente Médio em contextos sócio-culturais específicos. Iniciei essa investigação com meu trabalho de campo de doutorado na Síria em 1998 e, posteriormente, no Líbano. No entanto, desde 2003 ampliei o universo etnográfico e comparativo da pesquisa para as comunidades médio-orientais no Brasil, especificamente aquelas situadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Neste sentido, abordarei nesta comunicação os diferentes processos de construção das identidades muçulmanas no Brasil dentro do contexto sociocultural das comunidades muçulmanas do Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo, de modo a compreender como diferentes elementos e processos atuam em cada uma delas. Do mesmo modo, será ressaltada a importância das conexões transnacionais como elementos fundamentais no estabelecimento das identidades muçulmanas diaspóricas no Brasil. Entendendo que as comunidades mais antigas constroem as suas identidades a partir de interpretações e práticas da religião tradicional que é percebido como uma “religião étnica”. Já as comunidades mais recentes, apesar de também terem elementos “étnicos”, possuem uma maior orientação para a construção e expressão de uma identidade universalista ou etnicamente “neutra” e para o trabalho missionário, o que leva a uma produção de interpretações da religião que sejam ao mesmo tempo influenciadas pelos valores culturais locais e conectadas com vertentes globalizadas. Assim, a noção de um “Islã brasileiro” cuja realidade social seja mediada por valores culturais vigentes no Brasil, deve incluir as conexões transnacionais que o fazem parte de um “Islã globalizado”, mostrando a impossibilidade de separar tais dimensões no caso de sistemas religiosos dotados de mecanismos universalistas como o Islã.

6. De las ilusiones del emigrado a los padecimientos del inmigrado caso de los inmigrantes árabes musulmanes a Chile 1930-1950

Lic. Jorge Eduardo Araneda Tapia, jorge.aranedat@gmail.com, Centro de Estudios Árabes, Universidad de Chile

El presente artículo busca describir, las practicas colectivas de los inmigrantes árabes musulmanes, dentro del rango temporal que abarca desde su llegada a Chile desde 1930 a 1950, y su posterior consolidación, las que se manifiestan en los constantes esfuerzos por perpetuar y conservar sus propias especificidades, tales como lengua, ritos y prácticas religiosas, a la par de sus organizaciones sociales. Estas circunstancias aunque, coinciden con la de sus congéneres levantinos católicos ortodoxos, en el caso de los musulmanes, éstas se producen con mayores dificultades al ser dentro del total de inmigrantes, los de menor número. En segundo lugar, se analizará uno de los ritos de mayor importancia para los musulmanes que han vertido su cultura y conocimientos en las Américas y han hecho esfuerzos persistentes para observar su religión, a pesar de que sólo se perpetúa su fe dentro de sus propias familias, que es el Ramadán.

7. Processos de construção identitária na comunidade diaspórica árabe de juiz de fora

Lic. Rodrigo Ayupe Bueno Da Cruz, royupe@hotmail.com, Universidade Federal Fluminense

Considerando a importância política, econômica e cultural da comunidade diaspórica árabe na cidade de Juiz de Fora (MG) esse trabalho discute os processos de construção identitária étnico-religiosas veiculados pelos imigrantes sírios e libaneses e seus descentes. Além disso, analiso a dinâmica estabelecida entre as dimensões locais e transnacionais movimentada pelos seus agentes e instituições.  A metodologia desenvolvida nessa pesquisa consiste na observação participante nos principais espaços de sociabilidade frequentados pelos membros da comunidade: O Clube Sírio-Libanês, fundado em 1964 pelos imigrantes sírios e libaneses e seus descendentes, com o objetivo de preservar as tradições de sua comunidade; O Grupo Nabak, grupo de dança árabe coordenado pelo imigrante libanês Tufic Nabak; A Igreja Católica Melquita, instituição cristã de rito grego e árabe construída em Juiz de Fora no ano de 1953, para reunir os cristãos orientais da cidade; e a Sociedade Beneficente Muçulmana, inaugurada oficialmente no ano de 2002. A Comunidade árabe de Juiz de Fora, se apresenta publicamente como um só grupo, na maioria das vezes definido por eles como "sírio-libanês", na medida em que suas diferenças culturais são organizadas em relação à sociedade brasileira e sua ligação com a região de origem é mantida por suas conexões transnacionais. Esse fenômeno, conhecido na Antropologia como etnicidade, não exclui as inúmeras diferenças internas entre eles que são reforçadas em inúmeras situações visualizadas no campo, sejam em termos de identidades religiosas, locais, ou nacionais.

8. Árabes estabelecidos e refugiados palestinos recém-chegados ao Brasil: embates referentes ao "direito de retorno" e a uma "pedagogia de ascensão social"

Dra. Sônia Cristina Hamid, soniahamid@gmail.com, Universidade de Brasília  

Nesta apresentação, viso discutir alguns aspectos que nortearam a relação entre os árabes (palestinos e libaneses) estabelecidos no Brasil e os refugiados palestinos recém-chegados através do Programa de Reassentamento Solidário do governo brasileiro. Ao contrário da histórica imigração árabe para o Brasil, inicialmente caracterizada como masculina, "voluntária" e estabelecida através de laços de amizade e parentesco, a vinda de pouco mais de 100 palestinos, em 2007, foi marcada pela intervenção estatal e humanitária e pela atribuição do status oficial de "refugiados" pelo Estado brasileiro. Em linhas gerais, aponto como a intervenção do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e do Estado brasileiro no reassentamento destes palestinos, alocados inicialmente no campo de refugiados Ruwesheid, na Jordânia, culminou em embates variados entre organizações palestinas locais, colocando em relevo discussões e apreensões acerca do "direito de retorno" e sobre sua (não) responsabilidade em relação à "integração" deles no âmbito local. Em outra direção, aponto como a percepção de certos libaneses e palestinos estabelecidos de que os refugiados seriam dependentes da assistência humanitária os levou a querer transmitir uma "pedagogia de ascensão social" que tem como marco a vida de "mascate" e que é marcada pelo "trabalho árduo" e pela "contenção de gastos".

9. A vila palestina que fala português: identidade e pertencimento em Kharbatha al-Misbah

Lic. Rodrigo Prates, rdprates@gmail.com, Universidade de São Paulo

Na Cisjordânia, a 15 quilômetros de Ramallah, a vila de Kharbatha al-Misbah é formada por um número significativo de famílias de "retornados" ou de duplos-cidadãos que se valem do passaporte brasileiro e da língua portuguesa como diacríticos culturais. O intenso ir e vir de pessoas e as constantes trocas econômicas e sociais marcam a vida da pequena vila palestina, uma vez que mantém viva a conexão com o Brasil. O objetivo deste artigo é analisar a relação entre este grupo de palestinos e o Brasil, uma vez que mais de cem habitantes da vila possuem cidadania brasileira, e cerca de outros cento e cinquenta vivem atualmente no Brasil - dez deles alistados no exército brasileiro. Os laços estabelecidos com o Brasil, seja por meio dos passaportes, da manutenção da língua portuguesa, da relação com os familiares que residem no Brasil ou pelo intenso ir e vir de pessoas, marcam uma dinâmica na construção de pertencimento estabelecida na transnacionalidade, em que ser palestino e brasileiro simultaneamente pode ser percebido como uma forma de capital simbólico acionado pelos indivíduos. Neste aspecto, o Brasil se apresenta como comunidade imaginada sobre a qual se constroem tanto as ideias de pertencimento e identidade como a oportunidade de ascensão econômica diante da falta de perspectivas locais. A análise que aqui se propõe busca investigar os processos de construção de identidade e pertencimento entre os palestinos de Kharbatha al-Misbah que retornaram à Palestina após viver no Brasil, e que se identificam como palestinos-brasileiros, numa dinâmica identitária que os mantém conectados com o Brasil. Esta análise é resultado de uma pesquisa ainda em fase inicial, fruto de três meses de etnografia junto a essa comunidade na Palestina.

10. O afeto como mediação religiosa: Relações locais e transnacionais na construção de identidades muçulmanas entre mulheres convertidas da Mesquita da Luz 

Mg. Liza Dumovich, lizadumovich@gmail.com, Universidade Federal Fluminense

Esse artigo é baseado na minha dissertação de Mestrado em antropologia sobre conversão feminina ao islã na comunidade sunita do Rio de Janeiro, representada pela Mesquita da Luz. A conversão se mostrou um processo mediado pelo encanto com a "cultura árabe/islâmica" e o afeto por um homem muçulmano estrangeiro, de algum país do Oriente Médio, Norte da África ou subcontinente indiano, que elas conhecem na internet. Desse sentimento, surge um relacionamento amoroso, construído nas interações online que, eventualmente, ocupam também espaços offline, seja no Brasil ou no exterior. Nos casos que culminam em casamento, algumas muçulmanas convertidas se mudam para o país onde mora o marido, enquanto outras permanecem no Brasil, com ou sem o cônjuge. A internet desempenha um papel fundamental nesses relacionamentos e, por conseguinte, no encontro das mulheres com o islã. Ela é o lugar do romance "oriental" ao mesmo tempo em que é uma ferramenta de acesso a diversas representações da religião. Assim, a construção das identidades muçulmanas das mulheres convertidas da Mesquita da Luz se dá através de negociações com o quadro normativo e as práticas da tradição islâmica, conforme a definição dos líderes religiosos locais, e com as diversas interpretações do islã que circulam nas suas redes de relações sociais, online e offline, que incluem seus maridos ou "pretendentes", amigos e autoridades no assunto, nacionais e internacionais. A análise etnográfica aqui proposta focaliza as diferentes formas de construção identitária entre as muçulmanas convertidas da Mesquita da Luz, a partir das suas relações locais e transnacionais com outros muçulmanos.  

11. Súditos otomanos no Brasil: visões de Constantinopla (1870-1918)

Dra. Monique Sochaczewski Goldfeld, sbmonique@uol.com.br, Fundação Getulio Vargas

O intuito desta comunicação é tratar da forma como o Estado otomano reagiu a emigração de seus súditos - gregos, armênios, judeus e árabes - para o Brasil no período que vai da década de 1870 a Primeira Guerra Mundial. De uma posição contrária a qualquer tipo de emigração ao estabelecimento de consulados no Rio de Janeiro e em São Paulo e busca por interação com as comunidades locais, pretende-se ainda abordar a existência também de uma "identidade otomana" em parcelas destes emigrantes/imigrantes. O trabalho, parte de minha tese de doutorado em fase de conclusão, tem a peculiaridade de se basear em inúmeras fontes coletadas nos Arquivos do Primeiro Ministro, em Istambul, bem como na imprensa, relatos de memória e entrevistas de história oral feitas no Brasil.

12. Ano que vem no Brasil: Narrativas da imigração judaica para o Rio Grande do Sul - os casos Egito e Turquia

Mg. Larissa Maria de Almeida Guimarães, laralube@yahoo.com.br, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Este resumo contempla uma parte de meu projeto de doutorado, e também esboça minha inquietação quanto à imigração judaica egípcia e turca para solos brasileiros, mais especificamente para o Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil. Diante de grandes levas migratórias de judeus europeus e da África Setentrional, a chegada de judeus turcos e egípcios não representaria algo excepcional diante do contexto geral, tendo em vista as duas Grandes Guerras na Europa.  As reverberações dos conflitos entre/pós guerras abrangeram territorialidades e sociabilidades estabelecidas e que, até certo momento, pareciam incólumes aos grandes desastres que se abateram sobre minorias étnicas e outros perseguidos. A imigração judaica turca para o Brasil teve seu grande apogeu durante a Guerra Greco-turca (1919-1922), com uma forte movimentação tanto de judeus gregos quanto de judeus turcos para o Egito, Israel e, alguns casos, América Latina (Brasil, Chile, Argentina, Uruguai). Posteriormente, já na década de 50 do mesmo século, outro conflito toma lugar e configura uma nova diáspora judaica, agora são judeus egípcios ou estabelecidos no Egito; com a fundação do estado de Israel em 1948 e com o posterior conflito em razão do Canal do Suez em 1956, as relações entre Egito e Israel tornam-se tensas, o que reverbera para a população judaica ali residente. Uma leva significativa aporta no Brasil e aqui se junta aos outros judeus de corrente sefaradita, culturalmente distinta dos judeus provenientes da Europa, o que promove (re)arranjos  e novas sociabilidades, intimamente ligados à organização espacial/geográfica dentro da cidade, contemplando especialmente Porto Alegre. Aportando-me em relatos de vida e narrativas orais de judeus provenientes (e descendentes) de uma parte do Oriente Médio, pretendo clarear aspectos de uma imigração relacionada a conflitos não diretamente judaicos e que, em muito, estão ligados à criação de um Estado Judeu Independente.

13. El Islam en el noroeste argentino: fronteras y tránsitos  entre alauitas y shiitas de la ciudad de Tucumán

Dra. Silvia Montenegro, silmarmont@hotmail.com, CONICET

En el contexto de la presencia musulmana en Argentina, la región noroeste ocupa un lugar destacado por haber sido el lugar de destino de algunos de los antiguos contingentes de inmigrantes árabes, entre los cuales se contaba una minoría musulmana que fundó algunas de las primeras instituciones islámicas del país. Este trabajo focaliza la presencia musulmana en la ciudad de Tucumán donde en 1930 inmigrantes mayoritariamente alauitas, provenientes de Siria, fundan la Asociación y Culto Pan Islámica que se mantiene activa hasta el presente como referente institucional de los musulmanes alauitas de la ciudad, dentro de un abanico de instituciones de la misma vertiente presentes en otras ciudades y regiones de Argentina.  A mediados de la década del 80,  por iniciativa de iraníes vinculados a la embajada de Irán en Argentina y ex miembros de la mencionada institución alauita,  se funda en la ciudad de Tucumán la mezquita Ash-Shahid que pasa a formar parte de un conjunto de instituciones shiitas y redes transnacionales que en la Argentina vinculan a las comunidades shiitas con la República Islámica de Irán. En esta presentación analizamos la transformación del espacio islámico de Tucumán, enfocando aspectos de su historia reciente, tomando como punto de partida la década de 80, y considerando la actual dinámica de tránsitos y fronteras existentes entre las comunidades alauitas y shiitas.

Viernes 16 de marzo de 2012