Departamento de Antropología

M2. Antropologia e saúde pública: interfaces contemporâneas

Día Horario Sala Sede Dirección
Miércoles 7 14:00-18:00 UG 17 Centro Cultural Gabriela Mistral Av. Libertador Bernado O'Higgins 227 (ver mapa)

 

Objetivo Geral

Contribuir com a divulgação dos conhecimentos antropológicos aplicados à saúde pública, notadamente a partir do estilo de vida dos grupos populacionais, ligados aos marcadores sociais da diferença e suas relações com a produção simbólica dos corpos e das práticas terapêuticas.

Resumo

Entre Antropologia e Saúde Pública transitam diversas faces e contrafaces, mas são nas interfaces que se encontram muitas das ferramentas possíveis para a compreensão dessa interação na contemporaneidade. Se o campo da saúde pública constrói-se a partir da complexidade das práticas, dos valores e do estilo de vida próprios aos grupos populacionais, esse campo se coloca como um espaço privilegiado para a reflexão antropológica, na medida em que se desenvolve em contextos de relações de alteridade, a partir dos modos de vida e das práticas dos grupos sociais, diretamente ligado aos marcadores sociais da diferença. Propõe-se (re)pensar a saúde pública e suas relações com a produção social da diferença nesse movimento dinâmico da atualidade por meio da articulação das categorias sociais de "raça", "gênero", "sexo", "etnia", "classe social", evidenciando os sistemas de classificação social, a comunicação entre os atores envolvidos, os modos de construção simbólica dos corpos, da saúde e das doenças e suas práticas terapêuticas.

Palavras-chave: Antropologia; Saúde Pública; Contemporaneidade, Marcadores Sociais.

Proponentes

Prof. Dr. Edemilson Antunes de Campos (moderador - EACH/USP)

Profª Ms. Ieda Cristina Borges (FSP/USP)

Ms. Marisa Augusta Trinca (FSP/USP)

Profª Ms. Roberta Andrea de Oliveira (FSP/USP)

Natália Sevilha Stofel (FSP/USP)

Olhando de perto: o método etnográfico na pesquisa em saúde

Edemilson Antunes de Campos. Professor Doutor na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH/USP) e no Programa Interunidades de Doutoramento em Enfermagem da Escola de Enfermagem da USP (EEUSP) e da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP (EERP/USP) e do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Contato: edicampos@usp.br

O campo da saúde se constrói a partir da complexidade das práticas, dos valores e do estilo de vida próprios aos grupos populacionais. Logo, esse campo se revela como um espaço privilegiado para a reflexão antropológica, na medida em que se desenvolve em contextos de relações de alteridade, a partir dos modos de vida e das práticas dos grupos sociais. As pesquisas qualitativas, que ocupam cada vez mais espaço no campo da saúde, evidenciam a prevalência das questões socioculturais e dos marcadores sociais da diferença: "classe social", "etnia", "gênero", "raça" na determinação do processo saúde-doença e das práticas de cuidado. Essas pesquisas revelam como os processos patológicos não são imunes à produção social da diferença, articulando-se aos sistemas de classificação social e aos modos de construção simbólica dos corpos, da saúde e das doenças e suas práticas terapêuticas. Assim, se é certo que o corpo humano possui uma anatomia e uma fisiologia, universais, os diferentes grupos sociais concebem o corpo, a doença e os cuidados com a saúde de uma maneira extremamente diversificada. Os limites entre o interno e o externo, o normal e o patológico assumem registros diversos dentro dos contextos socioculturais em que são estabelecidos. Nesse sentido, o corpo, a doença e saúde são realidades simbolicamente construídas dentro de contextos socioculturais específicos, de maneira que a realidade simbólica é chave para a compreensão do processo saúde-doença e, por essa via, das implicações deste sobre o organismo. O campo da saúde envolve fenômenos complexos, abarcando aspectos biológicos, econômicos, políticos e socioculturais, de modo que a antropologia e seu método etnográfico de investigação convertem-se em instrumentos poderosos, na medida em que evidenciam os limites do modelo biomédico ao revelar que as práticas de saúde de uma população estão diretamente ligadas ao seu modo de vida dentro de um contexto sociocultural. Nesse trabalho, busca-se refletir sobre a importância do método etnográfico nas pesquisas em saúde. Trata-se de abordar a etnografia como método de compreensão antropológica da diversidade sociocultural e, por essa via, compreender sua importância e sua especificidade na pesquisa sobre a saúde e o adoecimento, a partir de uma pesquisa etnográfica realizada em um grupo de doentes.

Comunicação e antropologia: por uma visão conceitual

Leda Cristina Borges. Doutoranda pela Faculdade de Saúde Pública (FSP), da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), mestre em Comunicação pela Universidade de Marília (Unimar), especialista em Educação, Ciência da Informação e História e Midia. Docente das Faculdades Adamantinenses Integradas (FAI), graduada em Jornalismo pela Universidade Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Bauru/SP. Contato: iedaborges@usp.br

O presente trabalho propõe, valendo-se de alguns conceitos da Comunicação e Antropologia, uma reflexão sobre o papel dos meios de comunicação de massa (MCM), diante de suas possibilidades de promoverem a educação e a saúde de grandes populações. Considera-se ainda, as interfaces de relação educativa entre: os serviços de saúde e a população brasileira utilizando-se do meio radiofônico, por meio de uma rádio educativa. Assim, o papel dos meios de comunicação de massa (MCM) uma vez que abrem possibilidades de atuação como ferramentas, tanto na mediação para os processos educativos entre os serviços de saúde e a população como pela construção e  exercício da cidadania. As emissoras de rádio educativas têm entre outras, a função de ajudar na capacidade de compreender e entender as relações sociais da comunidade em que está inserida. Diante da velocidade informacional, a Antropologia possibilita uma nova visão, em um momento que se apregoa a necessidade de cruzamento dos saberes. Trata-se um estudo exploratório das experiências já realizadas neste campo, e a proposta é a possibilidade de atualizar as reflexões no campo. O levantamento bibliográfico valeu-se da literatura especializada em livros, artigos sobre a temática.  Considera-se que sendo a Antropologia uma ciência, esta proposta pretende estimular  o (re)pensar da Comunicação, de uma maneira um tanto quanto complexa, mas atenta aos significados e simbolismos. Abrem-se horizontes de um diálogo envolvendo a identidade e o objeto da Comunicação, numa busca aos fundamentos sobre a intersecção entre as duas ciências. Palavras-chave: Comunicação e Saúde; Promoção da Saúde; Educação em Saúde; Antropologia; Rádiodifusão.  

A asma sob o olhar do cuidador familiar - uma reflexão antropológica

Marisa Augusta Trinca. Pesquisadora na Faculdade de Saúde Pública (FSP), da Universidade de São Paulo, no Programa de Saúde Pública, nível doutorado. Possui mestrado em Saúde Pública pela FSP/USP (2010), sendo especialista em Ortotraumatologia com a  graduação em Fisioterapia, pela Faculdade de Educação Física de Lins (1988). Experiência na área de Fisioterapia e Terapia Ocupacional atuando, principalmente nos seguintes temas: asma, promoção da saúde, representação social, escola e cotidiano. Contato: maristatrinca@uol.com.br

A proposta do estudo é a de realizar uma reflexão mais aprofundada sobre o papel desempenhado pela mãe, a provedora de cuidados, aos seus familiares e a de identificar nos discursos resultantes das falas das mães de crianças portadoras de asma infantil, sua responsabilidade pela saúde da família. O cuidado e o cuidador familiar têm despertado o interesse de muitos indivíduos e grupos, sendo atualmente objeto de estudo de diversas áreas, médica, social, psicológica entre outras, devido ao aumento de situações que passaram a solicitar do familiar o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos a fim de poder suprir a demanda imposta por questões cotidianas e proporcionar um cuidado à vida humana. O contexto cultural, político e econômico da sociedade influenciam o cuidado familiar, sendo vivido pela família de maneira única, afinal a doença transforma a família em cuidadores. Nesta perspectiva, muitos estudos têm mostrado o papel assumido pelas mulheres como as principais cuidadoras, como uma exigência apresentada pela sociedade na tarefa de cuidar do outro, dos filhos, da casa. Percebe-se que as cuidadoras familiares, as mães, são pessoas comuns, envolvidas emocionalmente com o doente, os filhos, e têm que conviver com a situação extremamente estressante dessa doença crônica, sem habilidades e conhecimentos suficientes para isso. A manifestação da asma ocorre em um contexto de relações interpessoais. Isso mostra a necessidade de um tratamento interdisciplinar que contemple as dimensões bio-psico-sociais. O papel dos profissionais é o de contribuir para que crianças e suas famílias possam vivenciar a asma como parte de um processo dinâmico da vida, a fim de que a qualidade do atendimento represente um caminho de crescimento para todos os doentes e seus familiares.

Adesão a tratamentos - qual o segredo?

Roberta Andrea de Oliveira. Psicóloga, psicanalista lacaniana, especialista em Saúde Pública, mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, docente de nível superior, e servidora pública na Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. Linhas de pesquisa: relação e comunicação entre profissional de saúde e paciente; Promoção de Saúde; adesão a tratamentos. Contato: robertaoliveira@usp.br

Pensar o cuidado em saúde implica no contato constante com códigos sociais e culturais dos diversos contextos onde as práticas são aplicadas. A Antropologia é uma ciência especializada na compreensão do outro, dentro de seu contexto sociocultural. Ou seja, é uma ciência que evidencia os limites do modelo biomédico quando revela que um modo específico de entender uma doença ou práticas de saúde e cura estão fortemente ligadas ao contexto sociocultural. Os aspectos socioculturais têm sido negligenciados nas intervenções terapêuticas na área da saúde. Consideram-se essenciais apenas as informações baseadas em evidências científicas, que acentuam riscos, prevalência e incidência. As evidências culturais são consideradas acessórias. Muitos estudos sobre adesão desconsideram o paciente como ser social dotado de expectativas, conhecimentos, interesses, e valores socioculturais, que produzem sentidos sobre o uso ou resistência ao uso medicamentoso em seu processo ou estado crônico de adoecimento. Para se alcançar a adesão de um paciente a um tratamento - adesão esta entendida como uma opção positiva em seguir as recomendações terapêuticas - torna-se imprescindível acessar a realidade simbólica deste sujeito, por meio do diálogo estabelecido entre profissional de saúde e paciente em momentos de interlocução, como na entrevista inicial de diagnóstico. Isto se faz necessário, porque o profissional de saúde e o paciente vivem uma relação assimétrica e conflitante, uma vez que, o profissional é aquele com "poder" de dizer sobre a vida e a "cura" e o paciente é aquele que necessita de ajuda para suas aflições. Logo, é fundamental problematizar essa relação, evidenciando as dimensões culturais e simbólicas que permeiam o processo saúde-doença.

Políticas públicas em saúde e infância: apontamentos para a cidadania plena das crianças

Natália Sevilha Stofel. Enfermeira (Universidade Federal de São Carlos - Brasil); especialista em Gestão em Enfermagem (Universidade Federal de São Paulo - Brasil), mestranda em Saúde Pública (Universidade de São Paulo). Desde 2006, trabalha na pesquisa em saúde indígena e atuando principalmente nos seguintes temas: atenção diferenciada à saúde, diversidade cultural e saúde, saúde das minorias, políticas públicas e cidadania. Contato: natalia.stofel@usp.br

A elaboração de políticas públicas em saúde voltadas às crianças não é alheia à reflexão que a sociedade (ocidental) faz do papel da infância. Até o século XIX inexistiam as intervenções sistemáticas sobre a saúde da criança, pois a família não formava cidadãos e sim parentes. A partir do final do século XVIII, observa-se um progressivo aumento da atenção médica dirigida às crianças, e entre 1910 e 1930, a assistência à saúde da criança, via serviço de higiene infantil, institucionaliza-se incorporada às leis, às propostas de saúde pública e à prática pediátrica, e na década de 30, essa assistência é reconhecida como fundamental para a construção de uma grande nação. As práticas de cuidado passam a descrever o tipo de família e de educação necessários para a criação de um adulto identificado com o Estado. Embora desde os anos 1980 haja a afirmação de que a infância não se caracteriza como uma fase de acesso à completude humana e sim como uma categoria ativa na estrutura social, as políticas públicas na atenção a saúde das crianças colocam-nas do status de sujeitos ativos para objetos passivos das práticas de cuidado, por serem formuladas na lógica do devir. O desafio é reconhecer as crianças como atores sociais plenos, capazes de exercer cidadania, no entanto a exclusão delas do mundo adulto é abordagem comum. O esforço de exclusão ajudaria a proteger as crianças dos perigos do mundo moderno; porém é um projeto ilusório, porque as crianças fazem parte desse mundo amplo, e são atingidas por seus eventos; e até mesmo contraproducente, já que a tentativa de colocá-las num tipo de "limbo" impede que se atente às macroforças importantes às condições de vida e saúde das crianças, e assim diminuir as diferenças em saúde entre crianças e adultos.

Sábado 26 de mayo de 2012